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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

“Os livros que devoraram o meu pai” de Afonso Cruz

“Olho para os meus filhos e para os meus netos e penso em que diabo de histórias se meterão eles e o que é que eles poderão um dia contar. Porque um homem é feito dessas histórias, não é de adê-énes e músculos e ossos. Histórias”. 



Sinopse
Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo.
Esta é a sua verdadeira história — contada na primeira pessoa pelo filho, Elias Bonfim, que irá, qual Telémaco, à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras.


Elias Bonfim descobre, no dia em que faz doze anos que afinal o seu pai não tinha morrido de doença de coração, como lhe tinham contado, mas, na verdade, entrara dentro de um livro e nunca mais ninguém soubera dele. A sua avó revela-lhe este segredo, no dia seguinte ao seu aniversário, ao mesmo tempo que lhe entrega, de prenda de anos, a chave do sótão onde se encontra a biblioteca do seu pai.

A partir desse dia, o jovem parte em viagem pelo mundo dos livros, seguindo as “pegadas” do pai, Vivaldo Bonfim. Começando pelos livros mais ligeiros, vai percorrendo os mundos descritos de vários autores, tentando encontrar vestígios e pequenos sinais, sempre na esperança de um encontro. Alguns dias mais tarde, começa a ler outros autores e entra verdadeiramente na sua aventura e procura pela “A ilha do Dr. Moreau” de H.G.Wells, passando para Stevenson, Dostoievski, Italo Calvino, Bradbury ou Jorge Luís Borges, entre outros.

Paralelamente a este desfolhar da biblioteca situada no sótão da sua avó, vamos acompanhando as suas aventuras de jovem adolescente com a mãe, avó, os amigos e até mesmo com a sua apaixonada. Aqui, na vida real, é o seu melhor amigo Bombo, que o apresenta a Lao Tse, mítico filósofo chinês, criador do Taoísmo.

Este livro, através da sua escrita simples e ligeira, permite a leitura de um público extremamente diversificado. Desde os mais jovens aos adultos, ou mesmo desde o leitor menos ávido ao mais apaixonado pela leitura, todos eles se sentem atraídos pela história do jovem Elias, possibilitando vários níveis de leitura, conforme a idade e a experiência do leitor.

A linguagem cativa-nos quer pela sua simplicidade, quer pela sua prosa poética, que surge nas caracterizações e descrições ao longo do livro.

“E no dia seguinte lá fui, depois das aulas, ter com a minha avó. Ela disse-me para me sentar, fez um gesto com a mão engelhada em direção ao sofá das riscas. Sento-me sempre nessas riscas, sempre que a visito. Ela também se sentou com a sua lentidão e um vestido florido. Passou as mãos pelo cabelo, ajeitou a voz e os óculos. Por vezes a voz dela fica um pouco amarrotada, quando se senta, quando acaba de fazer um esforço. Explicou-me – enquanto eu mastigava um bolo – que eu já era um homenzinho e que começava a ter responsabilidades. Estava na altura de saber a verdade. As palavras dela vinham cheias de cabelos brancos, podia sentir que havia nelas muita vida vivida. (…)”

Elias Bonfim, vai crescendo enquanto pessoa, neste livro, atrás da ideia de que as histórias, a literatura, são constituintes integrantes do ser humano e dele fazem parte. “As personagens de carne são exatamente como nós, os de papel e letras negras” afirma Raskolnikov. (protagonista de “Crime e Castigo” de Dostoiévski. Paralelamente ele aprende duras lições na vida real, onde os sentimentos de culpa e arrependimento chegam tarde demais.

Um livro muito bom, que devoramos num ápice, completamente absorvidos pelo desfolhar das páginas sem darmos conta deste facto. 

Afonso Cruz é um excelente escritor, do qual vou querer ler muito mais.

Para uns, a raiz é a parte invisível que permite à árvore crescer. Para mim, a raiz é a parte invisível que a impede de voar como os pássaros. Na verdade, uma árvore é um pássaro falhado.”

5 comentários:

  1. Olá amiga Caminhante,

    Confesso que já tinha saudades de ver os teus comentários, que me deixam sempre curiosos e com vontade de te pedir emprestado :D

    Não sei já o que dizer em relação ao escritor, são várias as pessoas que o recomendam (amigas) ainda nem os contos da BANG da SDE li, comentamos sobre os seus livros na feira do livro, enfim tenho mesmo que ler ainda este ano.

    Dá a ideia que é um escritor original, que escreve coisas diferentes do que vemos por ai e claro mais tarde ou mais cedo será sem duvidas um escritor a ter em conta, tem tudo para vencer ;)

    Bjs e boas leituras e espero que estejas a gostar do Gene Wolfe :D

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    1. Olá Fiacha
      Pois é verdade que dei férias ao meu blog, mas agora vai vir em força, vais ver.
      Tens mesmo de ler Afonso Cruz. Vais gostar, eu acho. E são livros pequenos que lês num instante.
      Se quiseres posso levar-te na próxima troca de livros, é só dizeres :)

      Quanto ao Gene Wolfe ... espera para veres o comentário, eh eh. Mas já sabes que estou a gostar bastante.

      Bjs e boas leituras

      Espero que estejas a gostar dos crânios dos unicórnios, :)


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  2. Ois,

    Obrigado pela disponibilidade. Depois podemos combinar melhor :D

    Ai fico muito curioso por ler o que tens preparado para o Gene Wolfe :)

    Sim são estranhos, misteriosos e deviam aparecer mais no enredo eheheh....ai os unicornios :D

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    1. Sim, combinamos na próxima troca :)
      Estranhos, misteriosos, de pelo dourado e cheios de sonhos.... os unicórnios, claro :D


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  3. lol

    Mas só no outono é que tem pelos dourados :P

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